Na noite de domingo soubemos da partida precoce do amigo Jimmy Azevedo, jornalista por profissão e músico. "Copiando" a ex presidenta Dilma Roussef no velório de nossa amiga e participante Lícia Peres reproduzimos uma fala dela nessa ocasião: "O problema que quando se perde um amigo é que ficamos mais sós".
E porque a luta continua -também pelos que ja se foram como o Jimmy, a Lícia e a Dora- informamos que no dia 29 de junho, as 14h, estaremos mais uma vez ocupando o espaço "Tribuna Popular"proporcionado pela Câmara Municipal de Porto Alegre. Será a vigésima quarta vez, onde mais uma vez trataremos de questões do Centro especialmente do Gasômetro.
Tomamos a liberdade e a seguir a esta mensagem reproduzimos o belo texto produzido pelo também amigo e jornalista Felipe Vieira sobre o Jimmy.
A família, especialmente para a Mãe do Jimmy, D. Elisa, para os irmãos e amigos nossos sinceros sentimentos.
😢
Jornalista Felipe Vieira
Porto Alegre: Perdemos Jimmy, um repórter rock and roll
Há jornalistas que passam pelas redações. Outros deixam marcas. Jimmy Azevedo estava entre os que deixam marcas.
Conheci o Jimmy ainda muito jovem, na Rádio Bandeirantes. Mais tarde, voltamos a trabalhar juntos na Rádio Guaíba. Ao longo dos anos, acompanhei de perto uma característica rara: a capacidade de transformar qualquer conversa em algo mais interessante. Bastava apresentar uma pauta, uma informação ou uma ideia e, em poucos segundos, ele devolvia uma observação inteligente, uma frase inesperada, um olhar diferente sobre o mesmo fato.
Jimmy era repórter por vocação. Tinha curiosidade, inquietação e personalidade. Não se limitava a reproduzir versões prontas. Gostava de questionar, provocar reflexão e enxergar ângulos que muitas vezes escapavam aos demais. Era um profissional de atitude, daqueles que fazem a diferença em uma cobertura não apenas pelo que apuram, mas pela forma como pensam.
Sua visão de mundo era clara. Homem de esquerda, mantinha posições firmes sobre direitos humanos, questões indígenas, demarcações de terras e temas sociais. Discordar dele era possível. Ignorá-lo, impossível. Jimmy pensava, argumentava e sustentava suas convicções com independência intelectual e profundo senso crítico.
Mas seria injusto lembrar apenas do jornalista.
Seu nome já carregava uma pista. A referência a Jimi Hendrix nunca foi um detalhe. A guitarra fazia parte da sua identidade. Tocou em bandas, subiu a palcos, participou de projetos musicais e manteve até o fim uma relação visceral com o rock and roll. Gostava de muitos estilos, transitava por diferentes sonoridades, tinha gosto musical amplo e sofisticado. Ainda assim, era no rock clássico que sua alma parecia encontrar morada.
Quem conviveu com ele sabe que falar de Jimmy era falar também de discos, guitarras, shows, riffs e bandas. Era impossível separar completamente o repórter do músico. Em muitos momentos, as duas figuras se confundiam. O mesmo espírito inquieto que procurava histórias nas ruas era o que buscava novas canções, novos acordes e novas interpretações para a vida.
Neste domingo, 31 de maio, Jimmy Azevedo nos deixou, vítima de um câncer de pulmão. A doença enfrentava um adversário duro, mas os amigos sabiam que havia outra batalha antiga. Jimmy fumava muito. Como tantos fumantes, conhecia os riscos, ouvia os alertas e as preocupações dos amigos, mas a dependência era mais forte do que qualquer argumento racional.
Entre as muitas mensagens que deixa, duas frases ajudam a compreender quem ele era.
"Meu nome é Jimmy (por causa daquele Jimi). Minha alma é música."
"O plano é a altitude, mesmo que se caia, por vezes, aqui ou acolá."
Talvez esteja tudo resumido aí.
Jimmy viveu buscando altitude. Nem sempre os caminhos foram simples. Nem sempre as escolhas foram fáceis. Mas nunca lhe faltaram autenticidade, coragem intelectual e paixão pela vida.
Hoje, o jornalismo perde um repórter talentoso. Os amigos perdem um companheiro de conversas inesquecíveis. A música perde um de seus apaixonados.
Um repórter rock and roll.
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