Projeto prevê café ao lado de estação de bombeamento
Em agosto do ano passado, a Prefeitura assinou um
protocolo com a Associação Comunitária do Centro Histórico e a incorporadora ABF
Developments, que está construindo dois prédios na Washington Luiz bem próximos
à EBE Ponta da Cadeia, o Demétrio Premium Lofts View e o Caiz Downtown Sunset. A
Prefeitura anunciou que a parceria previa a implementação de um “boulevard” com
1.400 metros de extensão, ligando o Largo dos Açorianos até a esquina das ruas
General Salustiano e dos Andradas, “transformando o eixo viário da rua
Washington Luís em um corredor urbano ativo, como um parque linear, com calçadas
mais largas, nivelamento da rua em trechos estratégicos, instalação de
mobiliário e iluminação, calçamento permeável, paisagismo e espaços de arte”. A
ABF ficou responsável por contratar e doar o projeto, e por executar o projeto
do Trecho 1 – que vai da esquina das ruas General Salustiano e dos Andradas e
segue até rua General Vasco Alves – por meio de instrumento vinculado à outorga
onerosa do direito de construir. No último dia 5, foi feita audiência pública
online em que o escritório Urbideias, de Curitiba, contratado pela ABF,
apresentou o projeto. O arquiteto André Crestani apresentou um diagnóstico da
região, mostrando as calçadas estreitas, com obstáculos, e a aridez da paisagem
em determinados pontos. O projeto prevê a retirada de vagas de automóveis para
alargar as calçadas para, pelo menos, 1,5 metro. Cogita-se aumentar o número de
vagas em estacionamentos já existentes na região, transformando-os em edifícios
garagem de até três andares. O projeto também define a implantação de 183 novas
árvores, a ampliação de 10 mil m² de canteiros e implantação de 1200 m² de
jardins de chuva. Segundo o arquiteto, isto aumentaria em 1063% a área permeável
da região. O trecho de boulevard, de fato, ocorreria apenas nas imediações da
Escola de Administração da UFRGS, com a construção de um grande canteiro
central. Ao lado da EBE Ponta da Cadeia, o escritório de arquitetura previu a
construção de um “hortocafé”. Para os moradores do entorno, o empreendimento
seria inviável sem uma intervenção que terminasse com o mau cheiro do local. “Eu
acho inviável, sem melhorar aquilo ali, não tem condição de alguém estar ali
sentado ali comendo, conversando, curtindo um momento ali, sentindo aquele
fedor. Não tem a menor condição”, avalia Marília Bravo. Para Cassiano Carvalho,
o projeto como um todo precisará contar com a colaboração do Dmae. “Se vier a se
tornar realidade esse boulevard, o Dmae vai ter que se condicionar a uma outra
situação, porque eles não vão ter como se manter com esse odor e essa
característica de funcionamento deles”, afirma. Na audiência pública, o
escritório Urbideias não apresentou a questão do mau cheiro em seu diagnóstico
da região, tampouco soluções para o problema. Procurados pela reportagem, Dmae,
Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) e
ABF Developments não se manifestaram.
Prefeitura deve à população projetos semelhantes há 17 anos
Na revisão do Plano Diretor, em 2009, dois projetos muito semelhantes aos agora
propostos pela Prefeitura e ABF Developments foram aprovados. O Corredor Parque
Gasômetro prevê a ligação das praças Brigadeiro Sampaio e Júlio Mesquita com a
orla, com o entrincheiramento da avenida João Goulart. O Largo Cultural do
Gasômetro, por sua vez, visa criar um palco a céu aberto na rua General
Salustiano, onde existem espaços culturais consagrados da capital, como o Boteco
do Paulista. “Prevê que na rua General Salustiano, em duas quadras, a gente
aumentasse as calçadas, enterrasse os fios, e fossem restauradas fachadas”,
conta Jacqueline Sanchotene, coordenadora do Movimento Viva Gasômetro, entidade
que, por intermédio do então vereador Engenheiro Comassetto (PT), conseguiu a
aprovação das emendas. Em 2014, uma lei complementar instituiu o Corredor Parque
do Gasômetro previso pelo Plano Diretor. Ainda assim, o projeto não avançou.
Apesar dos 17 anos de espera, Sanchotene diz ter expectativas com o “corredor
verde”. “A gente tem esperança, se não, não estaria lutando. Que bom que a ABF
quer fazer coisas aqui”, afirma. Ela ressalta que, de alguma forma, o parque já
está vivo. “É o nosso gravame do parque que está evitando que sejam retirados
vegetais ou que sejam construídos estacionamentos”, exemplifica. Após a
audiência pública, ficou aberto um período para contribuições da população ao
projeto. Jacqueline Sanchotene enviou sugestões no sentido de valorizar a
história da região, contemplando no projeto, por exemplo, a antiga usina de gás,
fundada em 1874, que fica na rua Washington Luiz e é tombada pelo patrimônio
estadual. “É a verdadeira usina do gasômetro, pois a que chamamos de gasômetro
era a carvão”, conta. “Quando a ABF se interessa pela região, temos que
aproveitar esse canhão que eles têm aqui – porque parece que eles têm muito
dinheiro – apontando questões como a parte histórica. Grande parte dos prédios
históricos da cidade está no Centro. Não tem como repetir isso em outro local.
Acho que a gente consegue fazer uma boa parceria, se despir de vaidade, e
negociar o que for melhor para a comunidade”, completa. A coordenadora do
Movimento Viva Gasômetro concorda que a questão do mau cheiro é um problema que
precisa ser resolvido para o bom funcionamento do “corredor verde”, e conta já
ter debatido o tema com a Prefeitura, ainda na gestão de José Fortunati. “A
gente bateu muito nisso e se dizia que era uma questão de filtros. Acredito que
não seja difícil de resolver, mas a questão existe sim. Tem dias que o cheiro na
minha casa está insuportável”, relata Sanchotene, que mora a cerca de duas
quadras da estação de bombeamento.


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