29 março 2026
Matéria Jornal Sul 21
Sul21 - 15 anos - Meio Ambiente - 17 de março de 2026
Felipe Prestes
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Em meio a promessa de ‘corredor verde’ próximo ao Gasômetro, região sofre com mau cheiro de estação do Dmae Tanto o projeto urbanístico quanto o odor completam mais de uma década sem resolução
A promessa de um “corredor verde” próximo à Usina do Gasômetro ganhou força novamente, após assinatura de um protocolo de intenções, em agosto do ano passado, entre a Prefeitura de Porto Alegre, a Associação Comunitária do Centro Histórico e a incorporadora ABF Developments, que tem dois empreendimentos sendo construídos na região. Projetos semelhantes estão previstos desde a revisão do Plano Diretor, em 2009, quando foi incluída a construção de “corredor parque”, ligando a orla com as praças Brigadeiro Sampaio e Júlio Mesquita, e um “largo cultural” na rua General Salustiano.
Enquanto o projeto não sai do papel, outro problema da região também completa vários anos sem ser totalmente resolvido. O mau cheiro exalado pela Estação de Bombeamento de Esgoto (EBE) Ponta da Cadeia afeta moradores de ruas como Washington Luiz, Duque de Caxias e Demétrio Ribeiro desde 2014, quando foi feita uma reforma na estação, parte do Programa Integrado Socioambiental (Pisa).
À época, Zero Hora noticiou que as mudanças no saneamento fizeram com que o esgoto passasse mais tempo retido no local, até ser escoado para a Zona Sul, o que ocasionava o mau cheiro. O Dmae alegou que um produto químico estava em falta, mas que o problema logo seria resolvido. Moradores do entorno contam que, de fato, o mau cheiro arrefeceu, mas nunca passou completamente, e que, em determinadas épocas, fica mais intenso, como no verão.
Assim como ocorreu em 2014, a vizinhança está organizando um novo abaixo-assinado cobrando uma atitude a respeito do mau cheiro. “Algum tempo atrás esse odor era constante e incomodava muito o pessoal da região. Houve uma movimentação dos vizinhos do Centro e o Dmae resolveu. Mas, de uns tempos para cá, [o mau cheiro] está constante, o incômodo é generalizado entre os moradores”, relata Cassiano Carvalho. Morador da Duque de Caxias e síndico de um prédio na Demétrio Ribeiro, ele conta que em ambos há reclamações sobre o odor e, por isso, está organizando um documento com assinaturas dos moradores do entorno.
“Às vezes, é mais forte e sinto o cheiro de casa, e, às vezes, só passando na frente [da estação]”, conta Marília Bravo, que vive na região há sete anos. “Nos momentos em que está mais forte é como se estivesse dentro do esgoto”, lamenta.
Projeto prevê café ao lado de estação de bombeamento
Imagem gerada com auxílio de inteligência artificial por escritório de arquitetura projeta o ‘hortocafé’ ao lado de estação do Dmae Crédito: Urbideias/Smamus/PMPA
Em agosto do ano passado, a Prefeitura assinou um protocolo com a Associação Comunitária do Centro Histórico e a incorporadora ABF Developments, que está construindo dois prédios na Washington Luiz bem próximos à EBE Ponta da Cadeia, o Demétrio Premium Lofts View e o Caiz Downtown Sunset. A Prefeitura anunciou que a parceria previa a implementação de um “boulevard” com 1.400 metros de extensão, ligando o Largo dos Açorianos até a esquina das ruas General Salustiano e dos Andradas, “transformando o eixo viário da rua Washington Luís em um corredor urbano ativo, como um parque linear, com calçadas mais largas, nivelamento da rua em trechos estratégicos, instalação de mobiliário e iluminação, calçamento permeável, paisagismo e espaços de arte”.
A ABF ficou responsável por contratar e doar o projeto, e por executar o projeto do Trecho 1 – que vai da esquina das ruas General Salustiano e dos Andradas e segue até rua General Vasco Alves – por meio de instrumento vinculado à outorga onerosa do direito de construir.
No último dia 5, foi feita audiência pública online em que o escritório Urbideias, de Curitiba, contratado pela ABF, apresentou o projeto. O arquiteto André Crestani apresentou um diagnóstico da região, mostrando as calçadas estreitas, com obstáculos, e a aridez da paisagem em determinados pontos. O projeto prevê a retirada de vagas de automóveis para alargar as calçadas para, pelo menos, 1,5 metro. Cogita-se aumentar o número de vagas em estacionamentos já existentes na região, transformando-os em edifícios garagem de até três andares.
O projeto também define a implantação de 183 novas árvores, a ampliação de 10 mil m² de canteiros e implantação de 1200 m² de jardins de chuva. Segundo o arquiteto, isto aumentaria em 1063% a área permeável da região. O trecho de boulevard, de fato, ocorreria apenas nas imediações da Escola de Administração da UFRGS, com a construção de um grande canteiro central.
Ao lado da EBE Ponta da Cadeia, o escritório de arquitetura previu a construção de um “hortocafé”. Para os moradores do entorno, o empreendimento seria inviável sem uma intervenção que terminasse com o mau cheiro do local. “Eu acho inviável, sem melhorar aquilo ali, não tem condição de alguém estar ali sentado ali comendo, conversando, curtindo um momento ali, sentindo aquele fedor. Não tem a menor condição”, avalia Marília Bravo.
Para Cassiano Carvalho, o projeto como um todo precisará contar com a colaboração do Dmae. “Se vier a se tornar realidade esse boulevard, o Dmae vai ter que se condicionar a uma outra situação, porque eles não vão ter como se manter com esse odor e essa característica de funcionamento deles”, afirma.
Na audiência pública, o escritório Urbideias não apresentou a questão do mau cheiro em seu diagnóstico da região, tampouco soluções para o problema.
Procurados pela reportagem, Dmae, Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) e ABF Developments não se manifestaram.
Prefeitura deve à população projetos semelhantes há 17 anos
Na revisão do Plano Diretor, em 2009, dois projetos muito semelhantes aos agora propostos pela Prefeitura e ABF Developments foram aprovados. O Corredor Parque Gasômetro prevê a ligação das praças Brigadeiro Sampaio e Júlio Mesquita com a orla, com o entrincheiramento da avenida João Goulart. O Largo Cultural do Gasômetro, por sua vez, visa criar um palco a céu aberto na rua General Salustiano, onde existem espaços culturais consagrados da capital, como o Boteco do Paulista.
“Prevê que na rua General Salustiano, em duas quadras, a gente aumentasse as calçadas, enterrasse os fios, e fossem restauradas fachadas”, conta Jacqueline Sanchotene, coordenadora do Movimento Viva Gasômetro, entidade que, por intermédio do então vereador Engenheiro Comassetto (PT), conseguiu a aprovação das emendas.
Em 2014, uma lei complementar instituiu o Corredor Parque do Gasômetro previso pelo Plano Diretor. Ainda assim, o projeto não avançou. Apesar dos 17 anos de espera, Sanchotene diz ter expectativas com o “corredor verde”. “A gente tem esperança, se não, não estaria lutando. Que bom que a ABF quer fazer coisas aqui”, afirma. Ela ressalta que, de alguma forma, o parque já está vivo. “É o nosso gravame do parque que está evitando que sejam retirados vegetais ou que sejam construídos estacionamentos”, exemplifica.
Após a audiência pública, ficou aberto um período para contribuições da população ao projeto. Jacqueline Sanchotene enviou sugestões no sentido de valorizar a história da região, contemplando no projeto, por exemplo, a antiga usina de gás, fundada em 1874, que fica na rua Washington Luiz e é tombada pelo patrimônio estadual. “É a verdadeira usina do gasômetro, pois a que chamamos de gasômetro era a carvão”, conta. “Quando a ABF se interessa pela região, temos que aproveitar esse canhão que eles têm aqui – porque parece que eles têm muito dinheiro – apontando questões como a parte histórica. Grande parte dos prédios históricos da cidade está no Centro. Não tem como repetir isso em outro local. Acho que a gente consegue fazer uma boa parceria, se despir de vaidade, e negociar o que for melhor para a comunidade”, completa.
A coordenadora do Movimento Viva Gasômetro concorda que a questão do mau cheiro é um problema que precisa ser resolvido para o bom funcionamento do “corredor verde”, e conta já ter debatido o tema com a Prefeitura, ainda na gestão de José Fortunati. “A gente bateu muito nisso e se dizia que era uma questão de filtros. Acredito que não seja difícil de resolver, mas a questão existe sim. Tem dias que o cheiro na minha casa está insuportável”, relata Sanchotene, que mora a cerca de duas quadras da estação de bombeamento.
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